Sobre BBB, Ativismo, Compaixão e Lucidez

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Gilberto e Lucas, do BBB21. (Crédito da Imagem: Mídia NINJA)
Gilberto e Lucas, do BBB21. (Crédito da Imagem: Mídia NINJA)

Creio que, se você está em alguma rede social hoje, no início de fevereiro deste ano sem graça da pandemia de 2021, provavelmente seu feed foi invadido por notícias sobre a edição 21 do reality show da autointitulada “casa mais vigiada do Brasil”, né?

por Seu Sandro Câmara > @seusandro

Então, mesmo que você seja feito eu (que não assiste o programa na TV aberta ou fechada e nem muito menos tem pay-per-view do BBB) deve estar vendo a repercussão e sabendo pelo menos alguns nomes que estão participando, certo?

Pois é… A cultura do cancelamento chegou nos programas, como posso dizer, “blockbuster pipoca” e fez um estrago, colocando um amargo na boca e palavras como “pesado”, “chato de assistir”, além de coisas como “tortura psicológica”, “abuso” e afins na boca mesmo dos “profissionais” que acompanham o programa pra produzir conteúdo pros seus respectivos meios de comunicação (mais redes sociais, podcasts, sites e afins principalmente).

Só que não é apenas isso. Os discursos e as práticas de ativismo (sejam eles antiracista, antimachista ou pró-diversidade sexual e de gênero, por exemplo) e as pessoas que levantam estas bandeiras no BBB passam a ser atacados também pela grande mídia quanto pela mídia “independente” da Internet, já que artistas e influencers que eram conhecidos por tocarem nestes assuntos estão demonstrando no seu “jogo” doses cavalares de desrespeito, preconceito e hipocrisia, portanto. O grande movimento do cancelamento joga seu tsunami de certezas, textões e memes lacradores mesmo por parte de pessoas que estavam longe de serem ativistas em seu dia-a-dia. Assim, vemos um fluxo enorme de seguidores saindo de um canto pro outro, deixando de acompanhar uns e passando a acompanhar outros.

O ponto que gostaria de trazer aqui, depois dessa contextualização é o seguinte: essa confusão toda que desequilibra a saúde mental, emocional e física de quem participa e de quem assiste esse reality beneficia a quem mesmo?

É bom pensar um pouco nisso… Não precisamos ser formados em nutrição pra imaginar que comer o que encontramos no lixo em nossas refeições principais do dia e da noite vai fazer bem pra gente e pros outros. Por que então achamos que entupir nossas mentes, olhos e ouvidos com esse conteúdo tóxico vai fazer bem à alguém?

Acho que, se a gente ver algumas evidências, podemos chegar em algumas respostas interessantes. Uma delas é: programas desta chamada “indústria do entretenimento” não tem o menor compromisso com sua saúde mental, emocional ou física, e sim em encher o bolso dos acionistas e investidores desta indústria com o seu tempo e dinheiro.

Outra: ativismo só tem espaço neste programas simplesmente porque provoca polêmicas mil junto com milhares (pra não dizer milhões) de views, likes, dislikes e horas sem-fim consumindo a sua atenção em redes sociais, Internet e TV. Isso dá muito lucro pra pouquíssimas pessoas (que são as acionistas e investidoras destas plataformas), retorno esse muito maior do que qualquer um dos participaram desse (ou de outro) reality possa vir a ter.

Vale muito à pena criar uma cortina de fumaça (mesmo que ela irrite nossos olhos) pra deslocar o tempo das pessoas e desconectá-las do ativismo que precisamos agora: um que seja compassivo e lúcido.

Faz muitos anos, posso dizer sem medo de estar inventando currículo como muitos políticos deste atual governo, que estou inserido nos movimentos políticos seja pelo lado do movimento estudantil, em coletivos, no terceiro setor, no meu trabalho em estatais ou de forma independente.

Por isso mesmo, vale muito à pena abordar esse outro lado da questão que esse barulho do BBB pode vir à ajudar a enxergar: se nós não fizemos que nossas práticas e as teorias que acessamos possam ser um meio hábil para ampliar nossa própria visão e coração (fazendo que nós mesmos possamos encontrar e construir formas de incluir cada vez mais e melhor à gente mesmo, as pessoas e os seres em geral) estamos fadados a criar um peso desnecessário nas nossas costas e na dos outros.

O peso disso, no tempo em que vivemos, torna-se muito difícil de ser carregado. Precisamos estar leves e cultivar ambientes de leveza pra nós e pros outros, pra podermos lidar com a realidade que podemos enxergar como extremamente pesada, complexa e difícil.

Cultivar sectarismo e fundamentalismo só leva à construir ambientes e ações de exclusão. Basta ver o que acontece na História de todos os lugares e, principalmente na última década de nosso país que chamam de Brasil. Poucos ganham com isso e é uma imensa maioria que perde. E você, tá ganhando ou perdendo com essas coisas? Tá cansando dessas confusões ou tá afim de construir uma visão e uma ação no mundo compassiva, leve e lúcida, que possa incluir mais, preservando e ampliando as possibilidades de Bem Viver?

Que tudo possa ser auspicioso!


FONTE: Medium (Blog) do Seu Sandro Câmara > Seu Sandro, originalmente publicado em 14 de fevereiro de 2021

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