Por Fábio R. Bento

Quando estudei a Nostra Aetate, Declaração do Concílio Vaticano II sobre o diálogo inter-religioso, pensava que diálogo com os budistas seria para os católicos dos países do Oriente, e não para católicos brasileiros. Enganei-me.

A primeira vez que vi um budista foi na Itália, no segundo semestre de 1987 em Loppiano, na Toscana, perto de Florença. Estava no terceiro ano do Bacharelado em Teologia no Brasil e interrompi a faculdade para fazer um retiro de um ano nessa cidadezinha internacional do Movimento dos Focolares. O jovem Uttarananda chegou em Loppiano em setembro de 1987. Ele veio do Sri Lanka para fazer um curso de escultura em Florença e foi hospedado em nossa casa, que era um antigo convento de Capuchinhos que fora reformado para acolher 40 pessoas. Vestia um manto cor dourada e contou-me que no seu país alguns budistas tinham medo dos católicos por conflitos do passado. Ao lado de seu quarto deixamos um quarto livre para que ele pudesse montar seu altar budista e ele ficou muito feliz. “Não sabia que havia católicos que amavam budistas com tal delicadeza e sem intenções proselitistas”, disse-me. Depois disso, só fui manter relações mais estreitas com budistas no final de 2018, no Brasil.

Estava lecionando como visitante em uma universidade de João Pessoa, Paraíba, e nossa filha mais nova me pediu para acompanhá-la em uma aula de alongamento, só que naquele dia em vez disso havia aula de meditação silenciosa com um rapaz budista do CEBB, Centro de Estudos Budistas Bodisatva, o Gustavo. Ele nos orientou para que prestássemos atenção na respiração e não nos envolvêssemos com as distrações que emergiam naqueles quinze minutos de meditação. “Percebe o que aparece, preocupações, sentimentos, mas sem se envolver, sem rejeitar nem abraçar o que emerge”, explicou. Peguei essa dica e resumi no “percebe e não te envolve”. Desde então até hoje raramente passei um dia sem praticar meditação silenciosa, e ela se se tornou a base de minhas orações católicas.

Comunidades Budistas em todo o Brasil

Conheci depois outras pessoas de outros CEBBs, comunidades budistas que estão em dezenas de cidades do Brasil e que praticam o budismo sob o serviço de ensinamento prestado por Lama Padma Samten, ex-professor de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Assim, passei a frequentar o CEBB como católico interessado em praticar meditação e dialogar com esses amigos e amigas budistas brasileiros.

Nostra Aetate

Lemos na Nostra Aetate que “hoje, que o gênero humano se torna cada vez mais unido, e aumentam as relações entre os vários povos, a Igreja considera mais atentamente qual a sua relação com as religiões não-cristãs. E, na sua função de fomentar a união e a caridade entre os homens e até entre os povos, considera primeiramente tudo aquilo que os homens têm em comum e os leva à convivência” (n.1, 1965). Dessa forma, considero, de fato, muito importante que o diálogo seja apreciativo e não é difícil identificar pontos em comum entre as Sangas (comunidades) do CEBB e minha comunidade católica do Focolare. Por exemplo, nos CEBBs o objetivo da meditação é, sobretudo, a compaixão e se pratica o “amai-vos uns aos outros” que procuramos praticar também no Focolare. Um aspecto interessante também é que a meditação não é apresentada como se fosse religiosa. Ela pode ser religiosa ou leiga.

Aos poucos, conhecendo várias pessoas nas Sangas, temos tido diálogos muito férteis sobre nossas tradições e práticas. Desenvolvemos inclusive, por meio da Rádio Ação Paramita, algumas ações públicas de ajuda às pessoas nesse período de isolamento doméstico em razão da pandemia. Que o diálogo apreciativo continue, cresça e se expanda.


FONTE: Este texto foi extraído de VATICAN NEWS originalmente publicada em 26 de Agosto de 2020, às 14h33

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