COLUNA DO LAMA | Túmulo dos Vagalumes

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O anime “Hotaru no Haka”, dirigido por Isao Takahata e lançado em 1988 pelo Studio Ghibli, é um estudo cuidadoso da alma humana afundando no auto-interesse e autoproteção em tempos de crescente limitação de recursos – a história decorre na etapa final da guerra entre Japão e Estados Unidos. Mesmo pessoas de visão elevada e bem intencionadas, como a família raiz das crianças que são os personagens centrais, terminam por excluí-las, mas são boas pessoas. Entre os irmãos a solidariedade segue até o fim. Como quem tem visão ampla termina por ser dragado pelas visões menores? Esse é o tema.

É um estudo premonitório com respeito aos tempos que adentramos em que nossa natureza humana nos impulsionaria a acolher as pessoas em dificuldade, mas as famílias dos refugiados que adentram a Europa são excluídas, o mesmo nas fronteiras dos EUA e em todos os lugares onde a dignidade se perde pela miséria. Em todas as regiões, vemos insensibilidade com os povos da natureza e um número crescente de excluídos na forma de moradores de rua que lutam diariamente por comida para sobreviver. Isso é complementado pelo militarismo crescente, mesmo entre os civis que se armam para se defender dos desesperados que ampliam em número e em agressividade.

Os estudos feitos hoje em Auschwitz e Birkenau levam a compreender como os nazistas, ao separar as famílias, ao separar os pais das crianças e o casal, ao despi-los, cortar o cabelo, os levavam a perda da dignidade de sua própria figura. Eles, na aparência miserável e desprotegida, eram mais facilmente assassinados sem piedade e sem dor, como um estorvo que era eliminado.

As crianças no filme passam por isso e terminam como miseráveis sem dignidade frente aos próprios conterrâneos que os veem como vagabundos e como um estorvo. O filme estuda isso muito bem, mostrando que essas atitudes não vêm de uma questão étnica. Fica evidente que essas atitudes surgem da mente cármica dos seres do samsara.

O samsara opera por ciclos. Esses ciclos surgem da flutuação inevitável das condições dos vários componentes que constituem as situações causais. O samsara é como uma grande rede multidimensional, um organismo vivo em constante expansão e transformação, com várias estruturas interligadas. Seu código fonte é a operação dos doze elos da originação dependente. Quando a vida da biosfera é afetada, quando a riqueza dos elementos, das águas, das terras, do solo, do ar, da inteligência e do espaço são afetados, todos empobrecemos.

Mesmo os que têm muito, nessas circunstâncias sentem-se vulneráveis. Quando empobrecemos, sentimos carências e fragilidades e passamos a agir de forma focada para sobreviver. Disso surge a estreiteza, a perda da visão e o impulso de agir sem restrições e atingir nossos objetivos, mesmo que isso acarrete dor e destruição sobre os outros e sobre a natureza.

Fixados, operamos diretamente pela inteligência de sparsha/ contato, vedana/ sensação, trishna/ desejo-apego, upadana/ ações volitivas, bhava/ nascimento na bolha, e surgimos nos reinos inferiores de jeti, fixados firmemente aos nossos apegos e visões estreitas.

Empobrecidos, fragilizados, sem base e sem refúgio, afastados das bênçãos e da natureza, construímos muros de exclusão e passamos a utilizar a linguagem da agressão e o autoritarismo. Temos armas, violência e imposição, mas não temos paz, justiça ou esperança. Entristecemos, adoecemos o coração, o corpo, a mente e retrocedemos enquanto sociedade humana.

O Darma do Buda é um remédio amplo. É a fonte da primavera da auto-organização e reencantamento. Precisamos construir uma stupa em nossos corações e guardar com cuidado a compreensão das cinco sabedorias, das quatro qualidades incomensuráveis, das seis perfeições, em corpo, fala e mente, também em visão de mundo. É o código fonte da reconstrução das terras puras, que sucede o vento abrasador e destruidor do auto-interesse e violência que surge ciclicamente nesse mundo transitório e luminoso.


Nota Editorial: Apesar da Netflix ter anunciado recentemente que, a partir de fevereiro, todos os filmes do Studio Ghibli serão encontrados no serviço, O Túmulo dos Vagalumes não se encontra entre eles. Porém, ele pode ser assistido, com legendas em português, clicando aqui.

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